Quando cheguei nesta cidade me via perdido,
olhando as pessoas passarem rapidamente, desenfreadas buscando um suposto
aproveitamento do tempo. Toda aquela poluição dos veículos, sons de buzinas,
propagandas visuais e sonoras, turbulência imensa e eu, sem saber me situar
naquele ambiente. Confesso que me sentia amargurado, saudades tinha do contato
humano, das conversas sinceras, da simplicidade e da provincialidade.
Contava os dias e os centavos juntados com
muita dificuldade para que em alguns finais de semana pudesse rever meus avós e
meus amigos, como aquele ar me fazia bem, ares de finais de semana junto às
origens, mal me dava conta naquela época que futuramente sentiria tédio no
ambiente da infância, e como o marido traidor, me corromperia com esta cidade
suja e maluca, deixando para trás definitivamente a agradável e singela cidade
que nasci.
Acredito que o primeiro passo para essa
transição foi a descoberta da praça, ela trazia lembranças interioranas: o
coreto, as árvores antigas, os pássaros fazendo ninhos, os bancos de madeira e
aquele velho sentado, olhando para os mendigos que ali habitavam, com um olhar
profundo, como quem observava a loucura das pessoas, os acidentes constantes, o
comércio intenso, o consumismo e aqueles que pisavam na grama, com um ar de
reprovação. Não sei explicar, mas parece que aquele senhor via o mesmo que eu,
talvez percebia nele a figura do meu avô, poderia ter sido uma forma de suprir
a falta que ele me fazia naquele momento. Mas ainda lembro, ele observava o
mesmo que eu, a não ser quando eu o observava, e seus olhos como os meus,
escondidos por lentes divergentes, revelavam-me que ambos estávamos em
sintonia.
Por algumas vezes nossos olhares se cruzavam,
todas as terças lá estava ele, sentando no banco, olhando a cidade grande com
ironia, mas ao mesmo tempo, ele observava a daninha que vencia o concreto da
calçada, a lesma que sobrevivera ao pisoteamento iminente das pessoas
apressadas, o canto dos pássaros ofuscado pelo som dissonante dos carros e
respirava bem junto a árvore o pouco ar puro que tínhamos, juntos eu sei que
sentíamos a dor de haver tão pouco verde, cortado sobre o pretexto de
atrapalhar o aparecimento dos nomes dos estabelecimentos comerciais, diminuindo
assim a 'visibilidade' dos clientes.
Por meses, todas as terças lá estava ele, que
ficava algum tempo no banco e depois entrava no ônibus, indo embora. Percebi
que ele sempre pegava a mesma linha, no entanto, passavam por algumas vezes
cinco, seis ônibus, antes que ele entrasse em algum, isso me fazia sentir o
quanto ele adorava ficar sentado ali, olhando a demência das pessoas e suas
buscas intermináveis pelo nada. Nas terças havia as novenas da Matriz, a
primeira era bem cedinho e a última à noite, muitas pessoas desciam na Joaquim
Lúcio em peregrinação pela José Hermano, com terços nas mãos, principalmente
idosos, adentrando então à Igreja para rezarem. Aquele velho era um deles, por
isso sempre o encontrava no terceiro dia da semana, a partir de um
momento, já sabia que horas ele descia para ir à Igreja e que horas subia para
sentar-se à praça e me ensinar muito sobre esta cidade, me integrando à ela e
por mais estranho que pareça, conectar-me à mente dele, não havia dúvidas,
tínhamos os mesmos pensamentos.
O destino quis que me encontrasse com ele, nas
terças só tinha uma aula na Universidade, de geometria analítica, que na época
se chamava ainda geometria analítica com cálculo vetorial. Mal via a hora de
terminar a aula, e antes das nove corria para o ponto de ônibus, e ia
diretamente para a praça, esperar por ele e juntos refletirmos sobre nosso
ambiente. Por vezes tive vontade de sentar ao seu lado e puxar assunto, mas
isso seria inútil, nossas mentes e olhares se comunicavam de forma
transcendente, nenhuma fala conseguiria se equiparar àquela sintonia e
ressonância que tínhamos, palavras eram limitadas para exprimir, ele foi meu
primeiro amigo nessa cidade, a pessoa que me fez não mais sentir sozinho e
saber que por mais estranha que seja minha forma de perceber o mundo, há outros
como eu. Isso dá uma sensação de alívio tão grande.
Vi que o final do fluxo da vida chegava aos
poucos para meu amigo sentado no banco da praça, ele cada vez mais se mostrava
fraco, debilitado, tossindo constantemente. Mas seu espírito continuava
irradiante, e mais jovial que o meu, que nos meus 18 anos sentia-me velho junto
aquele jovem sentado no banco da praça. O tempo poderia estar matando o corpo
do meu amigo, mas não causava o menor impacto na sua integridade intelectual e
na sua serenidade, alma, criticismo e fé.
Da última vez que o vi, senti algo estranho,
como se estivéssemos nos despedindo para sempre, ele mal conseguia caminhar
naquele dia, com muita dificuldade erguia a cabeça e mantinha seu olhar profundo,
pela primeira vez ele não olhou para as pessoas loucas consumindo, nem para o
trânsito, ou para a escassa natureza presente, mas me olhou o tempo todo. Me
encarou como nunca, ele então me observava, podia-se notar que pensava em mim,
aquilo me confortava, sentia admiração e cumplicidade por parte dele, como se
estivesse me delegando seu lugar no banco da praça para partir. Então na quinta
vez que seu ônibus parou, ele caminhou em sua direção, e olhando para trás sem
cessar, mirando em mim, com dificuldade subiu as escadas, passou a catraca,
sentou-se no banco próximo à janela e continuou me olhando, como se fizesse sua
última viagem e dissesse adeus ao seu amigo e a praça.