domingo, 1 de dezembro de 2013

O velho sentado no banco da praça

Quando cheguei nesta cidade me via perdido, olhando as pessoas passarem rapidamente, desenfreadas buscando um suposto aproveitamento do tempo. Toda aquela poluição dos veículos, sons de buzinas, propagandas visuais e sonoras, turbulência imensa e eu, sem saber me situar naquele ambiente. Confesso que me sentia amargurado, saudades tinha do contato humano, das conversas sinceras, da simplicidade e da provincialidade.
Contava os dias e os centavos juntados com muita dificuldade para que em alguns finais de semana pudesse rever meus avós e meus amigos, como aquele ar me fazia bem, ares de finais de semana junto às origens, mal me dava conta naquela época que futuramente sentiria tédio no ambiente da infância, e como o marido traidor, me corromperia com esta cidade suja e maluca, deixando para trás definitivamente a agradável e singela cidade que nasci.
Acredito que o primeiro passo para essa transição foi a descoberta da praça, ela trazia lembranças interioranas: o coreto, as árvores antigas, os pássaros fazendo ninhos, os bancos de madeira e aquele velho sentado, olhando para os mendigos que ali habitavam, com um olhar profundo, como quem observava a loucura das pessoas, os acidentes constantes, o comércio intenso, o consumismo e aqueles que pisavam na grama, com um ar de reprovação. Não sei explicar, mas parece que aquele senhor via o mesmo que eu, talvez percebia nele a figura do meu avô, poderia ter sido uma forma de suprir a falta que ele me fazia naquele momento. Mas ainda lembro, ele observava o mesmo que eu, a não ser quando eu o observava, e seus olhos como os meus, escondidos por lentes divergentes, revelavam-me que ambos estávamos em sintonia.
Por algumas vezes nossos olhares se cruzavam, todas as terças lá estava ele, sentando no banco, olhando a cidade grande com ironia, mas ao mesmo tempo, ele observava a daninha que vencia o concreto da calçada, a lesma que sobrevivera ao pisoteamento iminente das pessoas apressadas, o canto dos pássaros ofuscado pelo som dissonante dos carros e respirava bem junto a árvore o pouco ar puro que tínhamos, juntos eu sei que sentíamos a dor de  haver tão pouco verde, cortado sobre o pretexto de atrapalhar o aparecimento dos nomes dos estabelecimentos comerciais, diminuindo assim a 'visibilidade' dos clientes.
Por meses, todas as terças lá estava ele, que ficava algum tempo no banco e depois entrava no ônibus, indo embora. Percebi que ele sempre pegava a mesma linha, no entanto, passavam por algumas vezes cinco, seis ônibus, antes que ele entrasse em algum, isso me fazia sentir o quanto ele adorava ficar sentado ali, olhando a demência das pessoas e suas buscas intermináveis pelo nada. Nas terças havia as novenas da Matriz, a primeira era bem cedinho e a última à noite, muitas pessoas desciam na Joaquim Lúcio em peregrinação pela José Hermano, com terços nas mãos, principalmente idosos, adentrando então à Igreja para rezarem. Aquele velho era um deles, por isso sempre o encontrava no terceiro dia da semana,  a partir de um momento, já sabia que horas ele descia para ir à Igreja e que horas subia para sentar-se à praça e me ensinar muito sobre esta cidade, me integrando à ela e por mais estranho que pareça, conectar-me à mente dele, não havia dúvidas, tínhamos os mesmos pensamentos.
O destino quis que me encontrasse com ele, nas terças só tinha uma aula na Universidade, de geometria analítica, que na época se chamava ainda geometria analítica com cálculo vetorial. Mal via a hora de terminar a aula, e antes das nove corria para o ponto de ônibus, e ia diretamente para a praça, esperar por ele e juntos refletirmos sobre nosso ambiente. Por vezes tive vontade de sentar ao seu lado e puxar assunto, mas isso seria inútil, nossas mentes e olhares se comunicavam de forma transcendente, nenhuma fala conseguiria se equiparar àquela sintonia e ressonância que tínhamos, palavras eram limitadas para exprimir, ele foi meu primeiro amigo nessa cidade, a pessoa que me fez não mais sentir sozinho e saber que por mais estranha que seja minha forma de perceber o mundo, há outros como eu. Isso dá uma sensação de alívio tão grande.
Vi que o final do fluxo da vida chegava aos poucos para meu amigo sentado no banco da praça, ele cada vez mais se mostrava fraco, debilitado, tossindo constantemente. Mas seu espírito continuava irradiante, e mais jovial que o meu, que nos meus 18 anos sentia-me velho junto aquele jovem sentado no banco da praça. O tempo poderia estar matando o corpo do meu amigo, mas não causava o menor impacto na sua integridade intelectual e na sua serenidade, alma, criticismo e fé.

Da última vez que o vi, senti algo estranho, como se estivéssemos nos despedindo para sempre, ele mal conseguia caminhar naquele dia, com muita dificuldade erguia a cabeça e mantinha seu olhar profundo, pela primeira vez ele não olhou para as pessoas loucas consumindo, nem para o trânsito, ou para a escassa natureza presente, mas me olhou o tempo todo. Me encarou como nunca, ele então me observava, podia-se notar que pensava em mim, aquilo me confortava, sentia admiração e cumplicidade por parte dele, como se estivesse me delegando seu lugar no banco da praça para partir. Então na quinta vez que seu ônibus parou, ele caminhou em sua direção, e olhando para trás sem cessar, mirando em mim, com dificuldade subiu as escadas, passou a catraca, sentou-se no banco próximo à janela e continuou me olhando, como se fizesse sua última viagem e dissesse adeus ao seu amigo e a praça.