'Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".'
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".'
(Allan Poe: o corvo - traduzido por Machado de Assis)
I Reis - Capítulo 17
"1-Então Elias, o tisbita, que habitava em Gileade, disse a Acabe: Vive o Senhor, Deus de Israel, em cuja presença estou, que nestes anos não haverá orvalho nem chuva, senão segundo a minha palavra.
2-Depois veio a Elias a palavra do Senhor, dizendo:
3-Retira-te daqui, vai para a banda de oriente, e esconde-te junto ao ribeiro de Querite, que está ao oriente do Jordão.
4-Beberás do ribeiro; e eu tenho ordenado aos corvos que ali te sustentem.
5-Partiu, pois, e fez conforme a palavra do Senhor; foi habitar junto ao ribeiro de Querite, que está ao oriente do Jordão.
6- E os corvos lhe traziam pão e carne pela manhã, como também pão e carne à tarde; e ele bebia do ribeiro."
Todos temem sua fama.
Por aqui, de tantos preconceitos
Sua cor lembra o sofrimento e a injustiça.
Esses seres insanos fazendo suas distinções.
Esqueça-os, é melhor!
Trago em meu sangue sua raça
Com orgulho a proclamo,
Sou preto como a matéria escura
Que molda o cosmos
E determina o destino do visível.
Que se danem os sombrios,
Góticos, macabros, ritualistas
E os ultra-românticos.
Constuíram imagem distorcida sua
Esses miseráveis propagandistas
Te usaram como símbolo
De suas demências.
Esqueça-os, é melhor!
Prefiro ver-te como mensageiro,
O guardião do tempo
Que tem acesso ao passado
E persiste nas memórias
Para que não esqueçamos
O quanto somos hipócritas.
Minhas mão sujas de sangue
Daqueles que trazidos
Pelo mar pereceram pela fome
Desidratados e nas fezes.
Você me faz ouvir seus clamores,
Posso sentir suas dores.
Em seus olhos contemplo
A cruz assassinando os costumes,
Roubando a riqueza da terra
De onde todos viemos.
Nossa mãe nasceu lá
Todos somos corvos.
No seu canto ouço o renascer,
O espírito é imortal.
Ao norte aquele som lindo
Tão popular e erudito igualmente:
O sax revelando as mentes,
O piano regendo os corações;
E o trompete, ah o trompete!
O discurso de igualdade:
'Todos temos um sonho
De que um dia seremos
nas rubras colinas da Geórgia,
Julgados pelo nosso caráter
E não pela nossa cor ou aparência.'
Te observo cruzando o Equador,
E onde o sofrimento no Sul se iniciara
Lá também ele se desfez.
Os deuses, as danças, ainda vivem!
Seja sempre idolatrada Bahia,
Conservara nossas origens
E descendo à outra baía
O corvo conheceu a ave alva,
E numa paixão avassaladora
Se entregaram inteiramente.
Eis que surge o mulato!
Que dança como o quasar,
Seduz o branco e o amarelo.
Na vibração de suas penas
Ouço o pandeiro tremendo,
O terreiro sendo exportado,
Os pés descalços flutuando.
Você venceu corvo,
Apenas os caídos não percebem,
Até eu cego, me rendi
E descobri que sou negro.
O DNA mitocondrial-
Ele sabe que todos somos negros!
Aqueles loucos te diflamam
Não sabem que vai ao cemitério
Para reviver mortos como eles,
Zumbis que pensam viverem
Mas estão enterrados em suas luxúrias,
Somente você pode tirá-los do túmulo.
São tolos ao desconhecerem
Que sua necrofagia é para purificar
Os imundos que se foram,
Cheios de ódio e de indiferença,
Os narcisistas, violentos e intolerantes.
Se não fosse você comendo suas carnes impuras
A esta hora suas almas estariam no inferno.
É um purificador corvo!
Em ti vejo tanta nobreza quando na águia e no falcão,
São juntos a trindade dos céus.
Essa viagem ao passado,
Todos deveriam fazer.
Mas me sinto cansado ave salvadora,
Homem ainda sou,
Porém você pode voar por onde queira
Não há tempo ou espaço em seu mundo,
Acho que por isso te acham obscuro.
Mas aquele que te conheceu
Descobriu a si mesmo
E matou sua arrogância,
Devemos muito a você corvo.
