sábado, 19 de maio de 2012

O falcão



Imensa surpresa e felicidade te rever,
Por vezes a humanidade presente se desfaz
E o espírito de ave ressurge em mim.
Nada mais desejo a não ser voar
Livre como você, meu amigo falcão.
Veloz, rasgando o ar e os grilhões
E como Hórus ser um falcomem
Peregrinando por este planeta,
Que lá do alto se mostrava tão azul.

Lembra-te dos tempos passados?
Juntos protegíamos os incas
E em troca ganhávamos veneração.
Quantas vezes com o Sol nos confundiram,
Nos chamavam de Inti....de Ra....
As noites que passamos nos rios de leite
Banhando nossas penas no sagrado.
Somente a vida importava,
Não havia empecilhos para vivê-la.

Ah, aquela deusa que me recebeu
Tão bela estava em sua alta morada.
Nos perdemos em um voo veloz
Onde o tempo passou lentamente
Para nós, como se vivêssemos a eternidade.
Eu bebendo da sua boca
E dormindo em seu leito,
Ela chocando os cinco ovos,
Eu chorando vendo meus descendentes nascendo.

E você meu camarada, o que me conta?
Tanto tempo de desencontros
A saudade dominante presente
Precisava tanto destas visitas mais vezes.
Parece que envelhecemos tanto:
Penas caindo e embranquecidas
E ainda assim consigo ver-me em ti
E ver-te em mim tão criança,
Como a primeira vez que saímos do ninho.

O saudosista ainda vive aqui
Aquele passado tão presente,
Mas hoje posso apenas relembrar.
Homem-máquina é o que se tem,
As viagens são destruidoras, insanas.
A felicidade está nas coisas inventadas
E não mais no espírito dos seres.
As deusas não mais existem
E o céu, ah o céu, é cinza.

Queria ser como ti companheiro
Apenas ave e não parcialmente humano
Talvez assim não traria o peso do mal
Nem a culpa dos atos nos genes.
Talvez não buscaria mais as deusas
E me contentasse apenas com a mortal.
Ah se eu fosse como você,
Continuaria voando pelo mundo
Como nos tempos antigos.

Volte mais vezes para esse triste ser
Em que hoje apenas vive em uma gaiola
Trancado e sendo atração dos homens,
Precisando se vender para ter dignidade.
Amigo, não imagina como é triste carregar isso,
Ser um híbrido, filho do primata e da ave
Ter mãos e usá-las para destruir
Ter um cérebro e usá-lo para a vaidade
Ter uma vida e vivê-la tão mediocremente.

Não era minha intenção turbar tanto seu coração,
Mas aqui ninguém ouve ninguém
Ou consegue entender o lado do outro,
Vivem como se estivessem em guerra
Competindo e inventando ilusões
Para se diferenciarem uns dos outros.
Se não tivesse vindo aqui hoje meu caro,
Não sei o que seria de mim.
Obrigado por tudo, e que voe em paz.