sábado, 16 de abril de 2011

Esperando pela chuva


Em Goiânia me sinto seco, quente e ao mesmo tempo frio, insuportável ficar diante de um tempo tão adverso, causador de males à saúde, em especial ao sistema respiratório. Como goiano, me acostumei com as chuvas em setembro, em algumas oportunidades (mesmo que raras), até mesmo chuvas em agosto. Guardava minha amargura durante o inverno, esperando que a primavera me trouxesse um pouco de humanismo, de sensibilidade e de amor. Isso sempre dava certo, em um 25 de setembro de qualquer um destes últimos anos estaria neste momento úmido, com frescor e vendo brotar em mim flores. Porém, hoje não observo isso.
Dizem que é devido a tamanha poluição causada pelo ser humano desde a revolução industrial, nossos confortos podem estar nos levando a uma vida miserável e destruindo além da nossa saúde, o meio ambiente que pegamos emprestado de nossos ancestrais. Também há aqueles que defendem que estas mudanças são frutos não da ação humana, mas de uma dinâmica natural que a Terra passa de milhares em milhares de anos, ou se preferir, eras. Por favor, não confundam com eras místicas, como as de aquário, touro, peixes...estas eras que trato aqui são geológicas, baseadas em estudos científicos e com apoio de diversas observações naturais, não 'retiradas' da cabeça de alguém que aceita os mitos que lhes são passados culturalmente como verdades ou de quem possui a necessidade de acreditar em algo que lhe deixe melhor.
Caso os partidários da primeira teoria estejam corretos, acho que enfrentarei essa situação com um maior entusiasmo, e mesmo sofrendo os danos dessas mudanças, perceberei tudo isso como uma vingança da natureza, diante de nossas inconsequentes ações, afinal de contas merecemos. Sei que é difícil abstrair da situação humana, ainda mais quando se trata da sobrevivência da espécie, mas tentemos este exercício de bom senso e compromisso com os fatos. Nosso planeta possui aproximadamente 4,6 bilhões de anos, no início tudo era poeira espacial, na maioria gases, que rodeavam o Sol, depois de algum tempo se condensaram e após isso grande parte se solidificou. Ali estava a matéria-prima de que o Universo necessitava para produzir vida, um planeta que estava a uma distância segura de sua Estela, com quantidade de radiação elevada para proporcionar reações químicas em moléculas orgânicas, constantes físicas ideiais para dar continuidade a estas reações, resumindo, tudo colaborou para que que a vida surgisse há aproximadamente 3,5 bilhões de anos, isso mesmo, a Terra demorou apenas cerca de 1 bilhão de anos para abrigar vida. Aqui cabe alguns comentários nada agradáveis a maioria das pessoas, sempre gosto de questionar a vida, compreender sua função, entender como ela é concebida no presente, e quando indago as pessoas sobre ela, em grande parte das vezes ouço uma idéia limitada de vida, que está mais para atividades culturais e convenções sociais que propriamente para a vida de forma geral. A vida é um fenônemo muito mais rico, profundo e abrangente que nossas idéias de 'ser feliz', 'ter objetivos', 'vencer na vida', 'conquistar'...não que eu negue a presença destes fatores na vida humana, mas quero falar de vida não de uma forma única em meio a milhões de diferentes formas de vida.
Não irei aqui tratar das teorias que explicam o surgimento da vida no planeta, há a possibilidade de um Criador, de um laboratório regido por seres mais inteligentes, de sermos produtos de vidas simples vindas do espaço em meteoritos, mais provavelmente de Marte, de uma reação devido a quantidade de eletricidade e radiação ultravioleta em sopas orgânicas e tantas outras. Quero apenas falar sobre o conceito vida, não há um consenso sobre o que pode ser considerado ser vivo, há aqueles que defendem que apenas seres com células podem ser chamados assim, outros vão um pouco mais além, argumentam que organizações moleculares complexas que se unem, com capacidade de sintetizar outras moléculas do meio externo, retirando energia das mesmas e ainda criar cópias de si, são formas também de vida, o que possivelmente aconteceu com os seres orgânicos que antecederam os seres com células.
Na minha modesta visão, fico com os partidários que concebem a vida além do conceito da célula, neste caso o que seria a vida para a natureza, deixaria nossas idéias morais ainda mais ridículas, em um contexto mais genérico dos objetivos da natureza, concebendo estes seres orgânicos como os primeiros a terem vida, constatamos que a vida só se preocupa em mater a espécie, proteção, energia para manutenção das reações e reprodução, nada mais que isso. Bem, depois estes seres foram sofrendo mudanças graduais, influenciadas pelos fatores ambientais, se adaptavam para subsistirem, surgindo então seres com células mais simples, ou os procariontes, que continham já DNA, e estes possibilitaram seres unicelulares mais complexos, ou os eucariontes, que possuíam além de DNA, organelas especializadas para cada função celular. Depois todos já sabem, cada vez a vida se torna mais complexa, surgem seres pluricelulares, como plantas, invertebrados (aqueles que você estudou no 7º ano: poríferos, cnidários, artrópodes, moluscos, platelmintos...), vertebrados: na sucessão de peixes, anfíbios, répteis, mamíferos e aves. Desde os simples seres unicelulares até os vertebrados, os objetivos da natureza permaneceram os mesmos, só que ela modificou a forma de levar os seres vivos mais evoluídos a buscarem-nos: o desejo sexual, a necessidade de outro ser para a reprodução, a vivência em grupos, a comunicação foi enriquecida, algo que chamamos de inteligência cada vez mais aguçada, grupos celulares especializados para determinadas funções. Porém, algo não mudou, todos estes seres pluricelulares, nada mais são que um conjunto de inúmeros seres com apenas uma célula trabalhando para a manutenção do organismo, neste grupo, nos incluímos, sua idéia de 'eu', ou de 'indivíduo', pode parecer ofuscada quando você passa a compreender que é a associação de diversas formas de vidas diferentes, cada célula no seu corpo é um ser vivo, cada bactéria que lhe compõem, sem elas nunca existiríamos, se todos soubessem do que somos feitos na verdade, se daria bem menos importância a estas diferenças ridículas que impomos uns aos outros, estas diferenciações são apenas uma forma que encontramos de conhecer, mas se adentrarmos na essência, veremos que a diferença entre nós e uma ameba, está apenas no número de células que possuímos e em algumas organelas em seus interiores.
A natureza então por bilhões de anos seguia com seus ciclos, os seres vivos eram extintos em massa, novas espécies surgiam e o processo continuava, até mesmo seres como os dinossauros que reinaram por milhões de anos, chegaram ao fim, pois as leis naturais são rígidas, a vida é apenas uma forma de organização química complexa, não foi feita para ser eterna, nem para um fim que não fosse servir a própria natureza. Eis então que há aproximadamente 500 000 anos atrás, surgem os primeiros humanos, ou tentativas disso, aqui é difícil especificar um período exato, pois ancestrais nossos primitivos se pareciam muito com alguns grupos de primatas (mas não se sintam ofendidos, não quis de maneira alguma comparar os primatas com nossa espécie, afinal de conta considero-os muito mais evoluídos diante do que a natureza os proporcionou). O homem (mulher) então surge e começa a aprender mais sobre seu meio, 'evolui', cria civilizações, domina os demais seres (pelo menos em parte), compreende várias leis naturais, seu cérebro desenvolve características únicas na Terra: amor, perdão, paz, abstração, criação, comparação, altruísmo, crítica...pela primeira vez uma espécie pode não ficar totalmente a mercê de seus instintos, porém grande parte depois de tudo isso, ainda prefere servir ao vertebrado primitivo que está em seu cérebro.
Poderíamos viver em harmonia com todos os seres vivos, pois somos o resultado de grande parte deles, basta percebermos várias funções que desempenhamos, nossa organização biológica e comparar desde de uma simples ameba, até um gorila. Estamos em sintonia com os vegetais, com todos aqueles que vivem, e ainda com os que não vivem, as rochas, o ar que necessitamos, a água, cada elemento da natureza está ligado a nós de forma sublime, única e maravilhosa. Mas, não nos damos conta disso, e nos separamos no meio natural, criamos um mundinho paralelo, onde somos o centro de tudo, só precisamos de nossas invenções para prosseguirmos e eis onde chegamos: somos doentes, nunca se viu tantas pessoas sofrendo simplesmente por se sentirem vazias, solitárias, vaidosas, complexadas...destruímos uns aos outros todos os dias, fazemos de tudo por dinheiro fácil e sexo barato, acabamos com as demais espécies em nome do progresso, e vejam só meus caros onde estamos chegando agora: em um mundo enfermo, onde a natureza cospe em nossos rostos por tudo o que fizemos a ela, nenhuma das nossas inovações nos traz conforto e paz interior, vivemos em mundos de aparências, de especulações, nos tornamos distantes de nossos próprios semelhantes e de todo o meio natural, nos enclausuramos pois tivemos o devaneio de pregar que somos autosuficientes e independentes de tudo e todos, centramos todo o Universo no 'eu', e eis agora, que buscamos status, riqueza, mulheres(homens), fama e beleza, enquanto a água potável vai se tornando mais excassa, e podemos em breve termos guerras a nível mundial por causa dela e metade da população morrer de sede, enquanto o ar se torna cada vez mais poluído por desfilarmos carros nas ruas e pelo nosso progresso em produzir e produzir de forma desenfreada sem nenhuma preocupação com o planeta, enquanto matamos pessoas pelo suposto amor, por dinheiro, ou inveja, enquanto a população cresce tanto, que o planeta não irá mais suportar, enquanto cerca de 70% das espécies se extinguirão no próximo século e nossa própria raça, corre o risco de sumir da mesma forma, será que nossos netos ou quem sabe até mesmo filhos, comerão dinheiro? Ou simplesmente clamarão por um mundo limpo e digno para desempenhar suas funções vitais?
Se você tem alguma esperança no ser humano, fico contente, pois no meu íntimo desejo este sentimento e que não sejamos mais tão estúpidos, porém, já o perdi; reconheço a nobreza de algumas pessoas, mas não é o suficiente, precisamos de um número muito maior do que temos, e acho isso difícil, pelo rumo cada vez mais egoísta, destrutivo, vaidoso e falso que as novas gerações tomam. Tenho cansado de tudo isso, neste tempo seco do cerrado, é meio que parecido com o de um deserto, fico assim mesmo, inquieto e áspero, não posso fazer nada além de dar minha pequena contribuição com mudanças de comportamento, e ainda assim minhas ações muito mais que colaboram para a destruição que para a manutenção da harmonia, sou culpado como vocês são caros amigos, mas espero que a cada dia possamos compensar nossas más ações com virtudes, pois somente nós humanos as possuímos, somos facas de dois gumes, deus e o diabo, bem e o mal, basta escolhermos o que temos de melhor.
Peço perdão se a linguagem te ofendeu ou lhe trouxe mal estar, mas como te disse é culpa desta primavera seca com cara de inverno, mal consigo respirar, estou soando por todos os poros, sinto sede a todo momento, e não há ninguém que possa me curar, a não ser a chuva de setembro, mesmo tendo por quase certo que este ano ela só virá em outubro, tenho esperanças e paciência para aguardar sua vinda, quero agora apenas ficar esperando pela chuva.