sábado, 16 de abril de 2011

O poema que eu queria escrever


Queria escrever um poema que falasse das minhas aflições, das aflições de todos aqueles que sofrem as dores do mundo, dos que sofrem de amor, de fome, de sede e de solidão.

Queria escrever um poema em que minha alma fosse revelada, e todas as vezes que você o lesse, me reconheceria em sua própria pessoa.

Queria escrever um poema que falasse de mim, mas falasse de você e todos os seres existentes, sejam eles vivos ou não.

Queria escrever um poema que cantasse canções de amor, de protesto e de sofrimento, e tocasse músicas apenas, sem nenhum canto.

Queria escrever um poema que falasse da minha busca, da minha inquietude e da necessidade que tenho da procura.

Queria escrever um poema que criticasse e humilhasse ferozmente a minha busca, caçoasse da minha cara por isso.

Queria escrever um poema em que mesmo sendo ridículo, me trouxesse a paz e findasse qualquer procura.

Queria escrever um poema onde tudo acontecia como sempre sonhei, onde não precisaria mais encontrar aquilo que eu já tinha.

Queria escrever um poema que fosse um espelho, onde todos veriam suas almas refletidas e conheceriam seus desejos mais profundos.

Queria escrever um poema onde as noites contigo são eternas, e nós apenas nos tornamos um, sem máscaras ou maquiagens.

Um poema em que dançamos de forma sacra todos os rituais indígenas para celebrar o sol, os animais e toda a natureza.

Um poema em que flutuando dançamos entre as nuvens o amor, que insistente acelera os nossos passos e nos faz perdermos pelo espaço.

Um poema que não seja compreendido por ninguém que não tenha o coração puro como de uma criança.

Um poema que nos faça delirar, nos entregarmos ao prazer de forma tão pura e verdadeira que não nos traga vergonha, mas confiança e cumplicidade.

Um poema em que somos apenas poetas, nada mais que líricos, idílicos e venturosos entre as palavras que exprimem aquilo que sentimos.

Um poema que grude em sua alma, como uma tatuagem no corpo, integrando sua pele e te marcando para que todos vejam.

Um poema que seja simples, humilde, mas que toque profundamente as crianças e os idosos, homens e mulheres.

Um poema que de tão absurdo faça sentido a você, e te traga para junto de mim nessas noites tenebrosas de primavera.

Um poema que mande você se afastar, mas que ao lê-lo você compreenda que quero que se aproxime de mim e nunca mais me deixe.

Um poema que seja escrito em uma língua que nunca existiu, nem existirá e mesmo assim se faça compreensível aos sensíveis.


Mas poeta não sou.
Sou insensível,
Duro e grosso,
Exato e frio.


Preciso de você para escrever esse poema.
Preciso de sua temperatura para aquecê-lo.
Preciso de sua doçura para compô-lo.
Preciso de seu odor para torná-lo agradável.
Preciso de seu sorriso para alegrá-lo.
Preciso do seu sarcasmo para ironizá-lo.
Preciso de suas mãos para sua caligrafia.
Preciso dos seus olhos para enxergar as letras.
Preciso de sua voz para recitá-lo.
Preciso de seus ouvidos para ouvir eu recitá-lo.
De toda sua força para trazê-lo à vida.
De sua sensatez para acalmá-lo.
De sua loucura para fazê-lo compreensível.
De suas histórias para enriquecê-lo.
De seus pensamentos para que ele faça sentido.
De sua calma para trazê-lo a paz.
De seu egoísmo para trazer identidade.
Das suas mentiras para iludi-lo.
De suas verdades para ensiná-lo.
Do seu amor para nos dar.


Quero apenas com você um poema.
Um poema que seja eterno,
Que nunca existiu
E que em nossos espíritos seja escrito.