sábado, 16 de abril de 2011

A luz que entrava pela janela

Lembro bem a minha infância, quando minhas duas janelas me mostravam o mundo. Tudo era tão claro e belo, podia por elas ver as cores da natureza, os raios de sol que até elas chegavam e as pessoas que passavam apressadas e desconfiadas. Como era azul o céu, branco o sorriso das crianças, verde as árvores e vermelhas aquelas flores, e tudo isso era possível porque pelas janelas a luz entrava sem nenhuma obstrução, apenas era preciso abri-las e deixar que a claridade chegasse e mostrasse toda a beleza que há lá fora. Cores e brilhos se misturavam em um tom tão intenso, tão nítido que só restava a contemplação, por horas não havia nada a ser feito senão observar, sem nenhum tipo de pensamento coerente vindo a mente, mas apenas a necessidade de ver, captar toda a essência de cada fóton que chegava pelas janelas, que estão arreganhadas esperando todas as partículas (ou ondas?) atravessarem e por elas passarem tendo apenas uma pequena resistência do ar, que imunda toda a casa, trocando com o meio externo diferentes gases e assim possibilitando que ela se matenha viva e gere energia para as janelas. Faróis refletores e refratores que iluminam meu caminho, fazendo com que eu ande com confiança, minhas balanças, que me trazem preconceitos e julgamentos mal formulados, que por vezes negligenciam os fatos, simplesmente pelo prazer que me traz, porque tanto sou seu refém? Porque por vezes dou menor importância as portas, ao alicerce, as paredes e ao telhado? Porque sigo sempre as janelas, que por vezes me traz decepção, ilusão e distorção? Parecia que não restava mais nada a fazer senão deixar que elas guiassem minha vida, passar o resto dos meus dias me baseando nas suas suposições imediatistas e uniformizadas. Porém um determinado dia o poder das janelas começou a falhar, as cores não eram mais tão vivas, as pessoas distorcidas e o mundo lá fora não tão claro, as janelas morriam....era preciso consertá-las, algo que as fizessem retornar ao que eram, pois não poderia viver sem elas funcionando. Ações paliativas através dos tempos iam sanando de forma geral o problema, mas comecei a perceber que elas nunca mais seriam as mesmas, a luz não passava agora como antes, as coisas não pareciam tão claras e simétricas como anteriormente, meu mundo não era o mesmo e nunca mais seria, as janelas estavam desgastadas para o resto da vida, só restava lamentar por perder a possibilidade de captar o mundo com tonalidade. Agora que as janelas não são tão cruciais na descrição das coisas, aprendi que as demais partes da casa podem me trazer mais verdades sobre as pessoas e as coisas, aqueles preconceitos e imagens fixadas como padrões foram sumindo, a descoberta que a captação da luz não é o objeto em si, me trouxe novas revelações sobre a realidade e profundidade sobre minhas considerações, apesar de não ver mais o mundo como 'ele é', descobri que na verdade ele 'nunca foi' o que eu enxergava 'como sendo'. A limitação e a dogmatização da formação de pensamentos através de apenas 2 ferramentas agora acabou, não me sinto mais preso a elas. Depois de mais de 10 anos sabendo que minhas janelas não têm volta, vejo as coisas com mais clareza que antes, mesmo que elas me revelem coisas distorcidas. Pois através de minhas paredes, portas, alicerce e telhado aprendi que a simples imagem não é a verdade ou mesmo revela o que são as coisas e os seres, ela apenas nos dá uma forma limitada de julgamento. Mesmo em alguns momentos sentindo saudades de ver com clareza o azul do céu, o branco do sorriso das crianças, o verde das árvores e o vermelho das flores, não trocaria a independência que hoje tenho das minhas janelas por nada, elas são partes importantes da casa, mas não formam mais isoladamente a minha percepção de mundo. Sei que aconteceu de forma involuntária o processo de degradação das janelas, mas cabe aqui o que Jesus disse: "Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno."




Recomendo a todos que puderem, a assistirem o documentário brasileiro 'Janela da alma', mostra muito bem o que é a visão, com profundas explanações de olftamologistas, poetas, escritores, filósofos, cientistas, míopes, cegos....garanto que será uma atividade enriquecedora.