As águas que descem o monte
Banham-me no domingo derradeiro
Me purificam do último desejo restante
Tornam meu coração verdadeiro
Como se aquele ente
Que tanto esperei em fevereiro
Fizesse presente
E levasse as águas ao bueiro
Meu sorriso ausente
Escapa ao olho mais sorrateiro
A expressão doente
Que se prende no chiqueiro
Como o porco demente
Que não suporta seu cheiro
E comumente
É sacrificado no terreiro
Aquela placa sinalizante
Fez-me mudar o paradeiro
De tão pedinte
Igual o cão busca seu traseiro
Mordendo-o com o dente
Na cabeça o travesseiro
Que de tão sufucante
Me fez perder no nevoeiro
A pimenta picante
Trazida pelo veleiro
Que no Oriente
Vence o mar traiçoeiro
E com queimor constante
Toma meu corpo inteiro
Trazendo-o brilho bastante
Como do céu aquele luzeiro
Do deserto escaldante
O calango que passa ligeiro
Igual a flecha cortante
Atravessando 'certeiro'
O coração pulsante
Do cavaleiro
Que seguia errante
E morto cai no trieiro
O livro na estante
Chamando o primeiro
Ser pensante
O qual lê o verso derradeiro
Que de tão excitante
Afunda ao ribeiro
E renasce irradiante
Como um novo guerreiro
A tulipa de presente
Dada a moça do puteiro
Não corrompe o decente
E o violeiro
A ela toca como amante
Como cavalheiro
E não mais como cliente
Toca seu corpo hospedeiro
Através daquele acidente
Pude ver o cruzeiro
Que no sul fluorescente
Guia o marinheiro
Como guiou o descendente
Pelas noites no carneiro
Que impotente
Ajoelhou-se ante o mensageiro
A mão dormente
Não mais aceita dinheiro
Busca apenas o imprudente
Ela acende o isqueiro
E descontente
Ateia fogo ao cafeeiro
E queimando fremente
Se transforma em jambeiro
Eu intransigente
Permaneço solteiro
Não há mulher confidente
No galinheiro
Nem atraente
No corriqueiro
Aqui apenas o descrente
E o caminheiro