sábado, 16 de abril de 2011

O tempo é relativo


"O tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do mesmo modo e por toda a parte."
(Albert Einstein)



Devido a nossa vivência em um lugar onde as velocidades são baixas se comparadas com a da luz, temos a impressão de que o tempo é absoluto e flui constantemente sem sofrer nenhuma interferência de outras grandezas. Bem, isso é natural, o grande e talvez incomparável gênio Isaac Newton estabeleceu que o tempo é algo imutável e absoluto, idéia que foi abraçada por todos e ainda hoje o é por muitos, nessa concepção o tempo sempre passa da mesma forma, ele nunca passará mais rapidamente ou mais lentamente. Você poderia argumentar, assim como Newton, que isso é óbvio, pois durante toda a sua vida não percebeu qualquer alteração da velocidade com que o tempo flui. Isso parece ser o mais razóavel, pois é baseado na experiência cotidiana e nunca falhou até agora, porém para Einstein a idéia de um tempo absoluto não fazia sentido, caso se considerasse a constância da velocidade da luz, diante disso ao formular a célebre Teoria da Relatividade Restrita, ele nos traz a tona uma verdade incoveniente: o tempo é relativo. Mas como? Você deve-se perguntar..... veremos a seguir como pode-se chegar a isso.
Einstein estabelece que tudo é relativo, com exceção de 2 coisas: as leis da física e a velocidade da luz, com isso ele acaba com os referenciais privilegiados, qualquer que seja o referencial adotado, as leis físicas funcionam, ao contrário do que se pensava antes, onde apenas os referencias inerciais eram válidos para tal fim. Mas vamos nos concentrar mais sobre o segundo postulado, ele nos afirma que independente de onde você esteja, independente da velocidade que se encontre, caso meça a velocidade da luz no vácuo, sempre encontrará um valor de aproximadamente 300 000 km/s. Bem e o que isso tem a ver com o tempo? Vejamos agora através de uma experiência usando a imaginação e um pouquinho de matemática básica.
Vamos imaginar a seguinte situação, eu sou o observador A e estou parado observando um trem que se desloca para a direita, você é o observador B e está dentro do trem, você possui em mãos um laser e aponta ele para um espelho que está preso ao teto do trem, você então dispara o raio na vertical e observa que ao chegar no espelho o raio é refletido de volta pra você. Você então vai me dizer que essa situação não traz nada demais, é apenas alguém dentro de um trem brincando de refletir raios em um espelho, será mesmo? Vamos observar isso com uma maior cautela.
Nesse caso nós temos 2 observadores: eu (o observador A) e você (o observador B), vamos descrever essa situação sobre as duas perspectivas, a minha e a sua. Primeiro vamos ver sob o seu ponto de vista, você me contará a história da seguinte forma: "eu estava parado dentro do trem, então emiti um raio na vertical contra o espelho preso no teto do trem, o raio seguiu na vertical, refletiu no espelho e retornou da vertical." Então para você temos que:
Ou seja, a sua velocidade é zero, pois você está parado em relação a você mesmo. Porém a luz se moveu, então podemos calcular a sua velocidade (c), pois sabemos o tempo que você mediu desde o momento que emitiu o raio até ele retornar (to) e sabemos a altura do trem (H).
Percebemos que a velocidade da luz (c) é igual ao dobro da altura do trem (pois ele sobe, bate no espelho e depois desce) dividido pelo intervalo de tempo que você mediu (to). Se isolarmos a altura do trem teremos:
Será que eu (observador A) estando fora do trem terei a mesma opinião que você (observador B) dentro do trem? Vamos analisar a seguinte figura:
Na figura podemos notar que eu estando de fora do trem perceberei diferente de você o fenômeno, primeiro porque no meu referencial você não está parado, mas está se movendo para a direita na mesma velocidade que o trem, portanto se considerarmos que o trem tem tamanho 2d, podemos achar sua velocidade (v) no tempo (t) que eu marquei do lado de fora.
Isolando o tamanho do trem, temos que:
Vimos que você estando dentro do trem pode estar parado ou em movimento, dependendo do referencial adotado. E a luz? Será que o raio provindo do laser terá uma descrição diferente no meu referencial (A)? Lembrando que no seu referencial (B) ele subiu e desceu na vertical. Ainda olhando a figura a seguir, vemos que a luz terá uma trajetória diagonal para o meu referencial, o que difere do referencial dentro do trem.
Se considerarmos que a diagonal que liga o piso ao teto do trem possui tamanho (L), podemos calcular a velocidade da luz (c) no tempo que eu medi (t) no referencial A:
Isolando a o tamanho da diagonal, temos que:
Com isso calculamos a altura (H), comprimento (d) e a diagonal (L) do trem, em função da velocidade da luz (c) e do trem (v) e dos tempos medidos pelo observador fora do trem (t) e dentro do trem (to).
Observando outra vez essa figura, percebemos dois triângulos retângulos equivalentes sendo formados, então podemos relacionar H, d e L pelo Teorema de Pitágoras.
Substituindo os valor de H, d e L temos que:
Dividindo ambos os lados por 4, chegamos que:
Agrupando do mesmo lado termos comuns:
Evidenciando o termo:

Dividindo ambos os lados por c²:
Separando em duas frações:
Percebam que um termo dividido por ele mesmo é 1.
Estraindo a raiz quadrada dos 2 lados:
Resolvendo a raiz quadrada:

Isolando o tempo no referencial A:
E então chegamos na equação que descreve o tempo que eu medi, em função do tempo por você medido, peceba que o tempo vai depender da velocidade que você se encontra no meu referencial, isso mesmo que você leu!!!!! O tempo depende da velocidade, ou seja, quanto mais rápido você estiver maior diferença existirá entre o tempo que você mediu e o tempo que eu medi. Por exemplo, se você viajar no trem a uma velocidade próxima da luz, passará para você alguns anos, enquanto que para mim podem-se passar dezenas, centenas e até milhares de anos!!!! Eis uma das muitas genialidades de Einstein, o tempo passa de forma diferente para dois corpos, estando com velocidades distintas. Citemos o famoso paradoxo dos gêmeos, onde 2 gêmeos idênticos aos 10 anos de idade são separados pelo destino, um deles João, entra em uma nave que viaja próximo a 300 000 km/s, enquanto seu irmão Pedro fica na Terra, esperando a volta do seu querido irmão. Após esperar 50 anos, Pedro já velho, observa a nave do seu irmão retornar e para sua surpresa, João estava apenas com 20 anos!!!! Isso nos mostra novamente como a velocidade dos corpos influenciam no tempo medido. Mas você pode perguntar, porque o tempo não passa diferente para uma pessoa que está correndo em relação a uma pessoa que está parada, e aí você tem outra surpresa, na verdade o tempo passa mais devagar sim para o corredor, a questão é que como a velocidade dele está muito longe da velocidade da luz, essa diferença de tempo não passa de uma pequeníssima fração de segundos, o que a torna imperceptível pelos nossos sentidos. Para que fique mais claro essa relação entre a velocidade da luz e a do corpo, vamos analisar as possíveis situações:
1)Essa é a situação que estamos acostumados no dia a dia, quando a velocidade nossa é muito menor que a da luz, caso isso aconteça na nossa experiência do trem, matematicamente temos que o tempo medido por mim e por você será praticamente o mesmo,
ou seja, não perceberemos diferenças relativísticas.

2)E o que aconteceria se nossa velocidade fosse maior que a da luz? A relatividade proíbe isso, é simples ver que se v for maior que c, teremos uma raiz quadrada negativa, o que não é possível, portanto, nenhum corpo pode viajar mais rápido que a luz.

3)Como não podemos ser mais rápidos que a luz, podemos imaginar então se somos capazes de alcançá-la, e a reposta novamente é não, se nossa velocidade for exatamente igual a da luz, chegaremos numa divisão por zero, o que novamente não é permitido, portanto, nenhum corpo pode atingir a velocidade da luz.

4)E se chegarmos infinitamente próximos a velocidade da luz? Nesse caso, quanto mais próximos da velocidade da luz, mais experimentaremos os efeitos da relatividade, no caso da nossa experiência quanto mais rápido o trem estivesse, mais devagar o tempo passaria para você no meu referencial, chegando ao ponto que dependendo da sua velocidade, se passariam 100 000 anos para mim e apenas 5 anos para você.
Ou seja, o tempo no referencial A será muito maior que no referencial B.

Eis a beleza da Relatividade de Einstein, e isso é apenas uma fração dela...além disso ela nos mostra a relatividade do comprimento dos objetos, da massa, a relação tempo-espaço, matéria-energia e de como a gravidade se comporta no espaço-tempo. Apesar de parecer absurdo pensar que o tempo e outras grandezas são relativas, é assim que o Universo funciona, mais uma vez a natureza nos surpreende e nos ensina que ela não depende das nossas vontades ou lógica, o fato de nós aceitarmos uma idéia que é senso-comum ou mais conveniente, não a torna verdade. Por isso, a cada dia a natureza me encanta mais e me faz compreender o quanto nossos desejos humanos e nosso mundinho são ilusórios, isso me faz pensar o quanto somos indiferentes para o cosmos, não há nada que nos coloque em situação de destaque, somos apenas uma parte minúscula dele, e a única coisa que podemos fazer é com esforço e deixando de lado nossos preconceitos e anseios, compreender um pouco do seu funcionamento tão assombroso e belo.